Rodrigo Lacerda
Domingos de Oliveira
MEDIAÇÃO: Paulo Roberto Pires
Domingos : Períodos de separação são altamente produtivos. Eu tenho 5 casamentos e 5 separações. E sempre a gente sofre muito.
Na primeira, desarticulei-me inteiro. Andava nas ruas e parecia que os prédios cairiam em cima de mim. Sofri muito. DESARTICULEI.
Na segunda separação. Sofri muito.
Na terceira separação. Sofri muito.
Na quarta separação. Sofri muito.
[estou resumindo, é lógico]
Na quinta... Se na primeira, eu me desarticulei, nessa eu DESAGREGUEI.
Foram malditas mas necessárias passagens.
Todos nós, amando e desamando, somos carneirinhos indo para o abate.
Sobre separação, há três indagações:
1) Por que o amor acaba? [e ele discorreu sobre o assunto por uns minutos]
2) Por que dói tanto quando o amor acaba? (por que, afinal, nos dilaceramos? E o que dói? Dói pelo que poderia ser e que não foi, dói pelo que fantasiamos. Os amantes sofrem como cães danados. Quando se ama, perde-se a liberdade, não tem jeito. Mas ter a liberdade, ficando sozinho, dói muito. Dostoiewski: 'não há nada que eu deseje mais que a liberdade, mas não há nada mais que doa tanto'.
3) Esxistirá mesmo um grande homem só?
Achei a conclusão do meu filme 'Separações' quando percebi a semelhança entre homens apaixonados e doentes terminais. Os 'micos' que a pessoa paga para ter seu amor...
RODRIGO LACERDA: No livro 'Outra Vida' mostro as situações corriqueiras, banais... Extrair significados mais profundos do cotidiano, é o que eu faço. Quem não consegue fazer isso é prisioneiro da própria mediocridade.
DOMINGOS: Não há banalidade no mundo. Nenhum acontecimento é banal; a questão é você enxergar mais de perto ou mais de longe.
Não é preciso conhecer a vida para conhecer a arte, mas é preciso conhecer a arte para conhecer a vida.
Tenho tantas coisas para contar que acredito que sejam úteis para as pessoas se eu contar.
Quando escrevo, tento não estar ali, mas mais próximo do incosciente. Depois, na hora de reorganizar é terrível!
Acho tudo uma merda. É uma grande dor. Mas, como a dor, acontece o mesmo: se não mata, passa.
Depois de um tempo, você vira meio 'cavalo' dos personagens: eles começam a escrever por você. Você vira uma espécie de 'cavalo' do inconsciente coletivo.
Acredito que exista uma TERRA DAS PEÇAS PRONTAS, ou TERRA DAS OBRAS DE ARTE PRONTAS. Chega um momento em que a gente já recebe tudo pronto. Quando a gente atinge esse estágio, é porque será uma boa obra.
RODRIGO: Os personagens não se rebelam contra mim. Nunca gostei dessa história, pois se quisessem tomar minha vez, eu diria: pegue essa lista e vá às compras. Depois de um tempo entendi o que os escritores diziam. não é que os personagens dominam, mas vão criando personalidade...
MEDIADOR: a identidade com os personagens.
DOMINGOS: Sobre um roteiro de filme policial que estou fazendo, certa vwez pensei em abandonar porque eu não conseguia sair de onde estava. Liguei para um amigo e contei o problema, dizendo: Não posso escrever sobre essa gente, nunca senti essas coisas, não consigo. Recebi a seguinte resposta tranqüila demais para mim: "Domingos, eles são iguaizinhos a nós". Aí eu entendi e consegui continuar.
RODRIGO: Em "outra vida" eu queria escrever sobre personagens totalmente diferentes de mim.
MEDIADOR: Domingos disse, com outras palavras, que toda arte é uma espécie de autoajuda. Explique isso melhor.
DOMINGOS: Eu sempre quis escrever um livro de autoajuda. Um LIVRO IMORTAL DE AUTOAJUDA. Você chega nas livrarias e nas prateleiras principais só há autoajuda. Principalmente nos aeroportos. (risos na platéia)
[Continua daqui a pouco: agora tem Chico Buarque.]
Continuando...
DOMINGOS: Sou a favor da VIDA! Mesmo quando estou deprimido, com vontade de morrer (o que acontece duas ou três vezes por semana, por sou normal), já tenho minha convicta posição.
"Sobre a questão da vida. não é para discutir, é para decorar"
MEDIADOR: sobre o universalismo. Partir do particular para o geral...
DOMINGOS: Isso é uma discussão ultrapassada! Tchecov já disse: quanto mais particular, masi geral. Todo mundo já sabe disso. É como discutir a existência de Deus. Não cabe mais. Pouco importa se Deus existe.
[depois de um tempo, Domingos pergunta]:
"não vamos passar pras perguntas não?"
[Outro momento interessantíssimo foi quando ele pegou o microfone errado e virou a mão para que ficasse certo. Muita gente riu. Ele ficou falando com a mão virada, mas o discurso era tão consistente que um minuto depois ninguém mais lembrava que ele estava segurando o microfone de maneira torta.]
DOMINGOS: Eu sempre que posso, falo pros artistas sobre o segredo da produtividade: é só acabar tudo o que começa. Só se vai saber se é uma merda ou não depois de pronto, que é quando você mostra pros outros.
[sobre a realidade e não-realidade]: A diferença entre estar mais perto da realidade é o grau sde fantasia que se quer viver. Eu escolho o mais alto.